A desvalorização dos direitos de transmissão da Ligue 1

Por Andrea Caropreso

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A Ligue 1 decidiu: a partir do próximo ano, irá autogerir os seus próprios direitos de transmissão com um canal criado especificamente pela liga. Essa decisão vem após a incrível desvalorização que o campeonato francês sofreu nos últimos 5 a 10 anos. Um campeonato que, teoricamente, deveria estar entre os cinco principais da Europa, mas que, na prática, desperta cada vez menos interesse entre o público e os broadcasters devido à sua falta de imprevisibilidade. O Paris Saint-Germain, por um lado, orgulhou o país ao conquistar uma Champions League que não vinha desde os tempos do Marselha, mas por outro, dominou completamente o campeonato, vencendo 11 das últimas 13 edições e contando com jogadores de um nível superior aos dos concorrentes.

O colapso dos direitos de transmissão

Voltando no tempo, podemos entender como a Ligue 1 chegou ao ponto em que nenhum canal (exceto o BeIN Sports, que transmite apenas uma partida) se interessou mais. Antes da pandemia, a liga francesa conseguiu um contrato de mais de 1 bilhão de euros, distribuindo os direitos de transmissão entre Canal Plus e BeIN Sports. O primeiro transmitiria as 3 melhores partidas, enquanto o canal catari ficaria com as 7 restantes.

Com essa aquisição, o Canal Plus previa gerar 2,7 bilhões de euros entre 2016 e 2020 (com novos assinantes, aumento de preços e fidelização). Já o BeIN Sports esperava 800 milhões. Ao término do contrato, a espanhola Mediapro tentou entrar no mercado. No entanto, permaneceu apenas durante a temporada 2020–21, pois a receita real foi 41% menor que o previsto (€620 milhões em vez dos €1,15 bilhões esperados).

desiree doue Ligue 1

Após esse fracasso, o novo ciclo (2021–2024) contou com a entrada da Amazon como parceira principal (junto com a BeIN Sports). O contrato, de 250 milhões de euros por ano, trouxe certa estabilidade, embora tenha forçado a Ligue 1 a desistir do contrato mais lucrativo com a Mediapro. Contudo, o acordo com a Amazon irritou ainda mais a Canal Plus, que estava pagando mais por apenas dois jogos sublicenciados.

A Canal Plus tentou rescindir o contrato, mas o tribunal decidiu a favor da BeIN, com o apoio da liga. Assim, a Canal Plus anunciou que não buscaria os direitos de transmissão para o ciclo 2024–2029.

O fracasso da DAZN e a autogestão

Chegamos então a 2024. No ano passado, a DAZN tentou adquirir os direitos, com duas condições: que o pacote não ultrapassasse os 400 milhões de euros por ano (a Ligue 1 esperava o dobro) e que houvesse uma cláusula de assinantes. Ou seja, se a DAZN atingisse 1,5 milhão de assinantes, manteria o acordo; caso contrário, poderia sair mediante uma multa de 85 milhões.

Ciclo e valor dos direitos nacionais da Ligue 1

CICLO ANOS EMISSORAS VALOR TOTAL (€M) VALOR ANUAL (€M)
2024–2029 5 DAZN, BeIN Sports €2.500 €500
2021–2024 3 Amazon, BeIN Sports €1.710 €570
2020–21 1 Canal+, BeIN, Mediapro² €620 €620
2020–2024¹ 4 Mediapro¹, BeIN Sports €4.400 €1.100
2016–2020 4 Canal+, BeIN Sports €2.906 €727

Notas:
¹ O contrato com a Mediapro foi rescindido em dezembro de 2020.
² A Mediapro pagou €100 milhões para se desvincular das obrigações com a LFP.

No final, a DAZN saiu do acordo devido ao fracasso evidente (nem metade dos assinantes esperados). A decisão mergulhou a Ligue 1 no caos, sem receita nem mesmo com a venda dos direitos internacionais — países como Itália não demonstraram interesse. Assim, a liga tomou uma decisão drástica, mas necessária: criar um canal próprio, como só parcialmente aconteceu nos EUA com a MLS.

O objetivo da Ligue 1 é alcançar ao menos 1,1 milhão de assinantes até o fim da próxima temporada, oferecendo um preço inicial acessível para gerar cerca de 151 milhões de euros em receita. A partir de 2026–2027, com a LFP transmitindo os 9 jogos (fim do acordo com a BeIN), estima-se um faturamento de €320 milhões com 1,5 milhão de assinantes. Em 2028–2029, a meta é atingir 2,1 milhões de usuários e €470 milhões em receita.

Impactos nos clubes da Ligue 1

Todo esse caos impactou diretamente a competitividade — não só interna, mas também em relação às outras 4 grandes ligas europeias (Premier League, Bundesliga, La Liga e Serie A). Os clubes sofrem as consequências: salários mais baixos (com exceção do PSG), receitas em queda e risco de falência.

Ligue 1

O caso mais recente é o do Lyon, que precisa captar €200 milhões em 7 dias (decisão do tribunal federal francês), ou será rebaixado à Ligue 2 — o que acarretaria enormes prejuízos em elenco e imagem para um clube histórico. A Ligue 1 agora joga sua partida mais difícil: a da sobrevivência. E, desta vez, o resultado não será decidido (apenas) no campo.

Por Andrea Caropreso

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Tags: Economia

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