Por Marta Elena Casanova
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O futebol árabe se tornou sinônimo de cifras astronômicas, contratos faraônicos e estrelas planetárias. O mais novo nome no radar da Saudi Pro League é Simone Inzaghi, recém-campeão italiano com a Inter de Milão, pronto para assinar um contrato de dois anos com o Al Hilal no valor de mais de 50 milhões de euros líquidos, sem contar os generosos bônus. Uma proposta de tirar o fôlego — mais de 25 milhões por temporada — que confirma a tendência já iniciada há algum tempo: na Arábia Saudita, o futebol é uma ferramenta de poder, imagem e diplomacia. Mas, diante de tantos investimentos, o sucesso em termos de interesse real e engajamento internacional do público está longe de ser garantido.
Gastos colossais, resultados a serem avaliados
Desde 2022, a Saudi Pro League já gastou mais de 1,5 bilhão de euros em contratações e salários. Os quatro clubes controlados pelo fundo soberano PIF — Al Hilal, Al Nassr, Al Ittihad e Al Ahli — atraíram nos últimos anos nomes como Cristiano Ronaldo, Karim Benzema, Neymar, Mané, Kanté, Brozović, além de treinadores como Jorge Jesus, Marcelo Gallardo e Stefano Pioli. Em termos de exposição midiática, é inegável: o mundo passou a olhar com curiosidade para essa liga.
No entanto, a equação entre grandes gastos e grande sucesso nunca é automática. Os estádios, embora modernos, nem sempre estão cheios. Os direitos de transmissão foram vendidos para diversos países, mas a audiência ainda é modesta. O público europeu, ainda que curioso no início, nunca abraçou de fato a Saudi League como uma verdadeira alternativa aos campeonatos do continente.
A seleção saudita e o efeito Mancini
Outro capítulo relevante é o da seleção saudita. Após a surpreendente vitória sobre a Argentina na Copa do Mundo de 2022, esperava-se um crescimento. Para liderar esse projeto, foi chamado Roberto Mancini, campeão da Eurocopa de 2021 com a Itália — técnico que depois deixou o cargo no final de 2024. Seu salário, como era de se esperar, foi faraônico: mais de 20 milhões de euros por ano, um dos mais altos da história para um treinador de seleção.
Mesmo assim, os resultados não foram animadores. A Arábia Saudita teve dificuldades na Copa da Ásia de 2024 e ainda está muito distante do nível das principais seleções do continente. Os talentos locais parecem sufocados pela presença maciça de estrangeiros nos clubes. A estratégia parece mais voltada à vitrine internacional do que ao desenvolvimento estrutural do futebol nacional.
Mais imagem do que revolução?
Por trás do futebol saudita está a iniciativa “Vision 2030”, um plano ambicioso que busca diversificar a economia nacional, reduzindo a dependência do petróleo e apostando em turismo, esporte e entretenimento. Nesse cenário, o futebol é um ativo estratégico para projetar uma imagem moderna e global do país.
Mas o risco é que essa modernidade seja apenas de fachada. Os clubes sauditas dependem economicamente do governo e de financiamento público. Não existe um ecossistema sustentável como nas ligas europeias, onde as receitas vêm de bilheteria, patrocínios, produtos licenciados e formação de jogadores. Tudo depende do dinheiro do petróleo e, caso o interesse político diminua, a bolha pode estourar rapidamente.
A possível chegada de Simone Inzaghi ao Al Hilal seria apenas o mais recente sinal de um projeto sem limites financeiros. Mas a abundância de recursos pode ser uma faca de dois gumes. Porque sem uma estrutura sustentável, sem uma verdadeira cultura esportiva enraizada e sem uma base sólida de torcedores apaixonados, os milhões não bastam para criar um campeonato respeitado e globalmente seguido.
O futebol árabe acendeu os holofotes, mas para transformar luz em paixão autêntica, será preciso muito mais do que um desfile de estrelas. Será necessário tempo, planejamento e, acima de tudo, uma visão que vá além de um simples cheque.
Por Marta Elena Casanova












