Por Marta Elena Casanova
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Nos últimos anos, o futebol vem passando por uma transformação profunda. Não se trata apenas do VAR, dos calendários congestionados ou dos novos formatos europeus: o verdadeiro campo de disputa hoje é a globalização dos campeonatos nacionais. Cada vez mais ligas — da Premier League à La Liga, passando pela Serie A — estão avaliando levar algumas partidas oficiais para o exterior, em mercados estratégicos como Estados Unidos, Oriente Médio e Austrália. O objetivo declarado é claro: ampliar o público global e aumentar as receitas comerciais. Mas por trás dessa estratégia esconde-se uma fratura cultural profunda — entre quem vê o futebol como um espetáculo global e quem o defende como patrimônio local.
O novo limite: levar os campeonatos para o mundo
A ideia já não é apenas uma hipótese. Nos últimos meses, dois casos concretos reacenderam o debate: a partida entre Milan e Como, em fevereiro de 2026, que a Serie A decidiu realizar em Perth, na Austrália, e o jogo da La Liga entre Villarreal e Barcelona, que será disputado no Hard Rock Stadium, em Miami, nos Estados Unidos, no próximo dia 20 de dezembro. Ambos os jogos receberam autorização excepcional da UEFA (no caso de Milan–Como, oficialmente por causa da indisponibilidade de San Siro, que será preparado para a cerimônia de abertura das Olimpíadas de Inverno de Milão-Cortina). No entanto, o presidente Aleksander Ceferin deixou claro que não pretende transformar essa abertura em um precedente. Ele se declarou contrário à “deslocalização” permanente dos campeonatos, alertando que “tirar o futebol de suas raízes pode quebrar sua alma”.
Nem todos, porém, compartilham dessa visão: o Como Calcio, por exemplo, apoiou a iniciativa, definindo-a como “uma vitrine para a Serie A e uma oportunidade para promover o futebol italiano no mundo”. Duas posições que sintetizam perfeitamente o dilema central: globalização ou tradição, abertura ou pertencimento.

O impulso econômico por trás da globalização do futebol
Por trás dessa tendência há um objetivo claro: expandir o valor comercial dos campeonatos nacionais. Com as receitas de TV na Europa se estabilizando, as ligas veem o exterior como o novo Eldorado. Estados Unidos, Ásia e Oriente Médio representam mercados em forte crescimento, com torcedores jovens e uma demanda crescente por conteúdo futebolístico. Levar uma partida para o outro lado do oceano significa reforçar a presença das marcas nos mercados emergentes, firmar novos acordos com patrocinadores globais e oferecer experiências ao vivo a milhões de fãs que, até agora, só acompanharam o futebol europeu pela TV. Para clubes como Milan, Barcelona ou Manchester United, significa consolidar o status de marcas globais. Já para equipes em ascensão, como o Como, pode significar entrar em um circuito de visibilidade internacional impossível de alcançar permanecendo dentro das fronteiras nacionais.
Mas o futebol pode realmente ser “exportado”?
Se do ponto de vista econômico a iniciativa parece lógica, no plano esportivo e identitário a história é bem diferente. Levar uma partida do campeonato envolve problemas logísticos, ambientais e físicos: viagens de mais de dez mil quilômetros, fusos horários complicados, semanas de preparação alteradas. E, sobretudo, perde-se a dimensão territorial — o que dá sentido a um clássico ou a uma rivalidade histórica. Jogar Milan–Como em Perth ou Villarreal–Barcelona em Miami muda o contexto, o público e a pressão. Para muitos torcedores, isso equivale a descaracterizar a competição, transformando um jogo oficial em uma exibição de marketing. Não é por acaso que surgiram protestos: diversos grupos de torcedores italianos e espanhóis classificaram a decisão como uma “venda da identidade”. O risco, alertam muitos observadores, é que o futebol perca sua ligação com o território em nome do lucro a qualquer custo.
Uma linha tênue entre crescimento e perda de identidade
O debate não é apenas econômico ou emocional — é também político e cultural. Ceferin tem reiterado que a força do futebol europeu está enraizada em sua conexão local, na paixão popular que liga os clubes às suas cidades, e que mover partidas significa “romper o pacto com os torcedores”. Ainda assim, as ligas veem a internacionalização como uma necessidade de sobrevivência: entre salários em alta e a concorrência de novas ligas emergentes (como a da Arábia Saudita), permanecer estático seria perder terreno. Talvez a verdade esteja no meio: o futebol do futuro precisará equilibrar negócios e pertencimento, abrir-se ao mundo sem esquecer suas raízes.
Eventos excepcionais, como Milan–Como na Austrália ou a La Liga em Miami, podem ser experimentos úteis — desde que não apaguem o valor cultural e esportivo dos campeonatos nacionais.
O futebol global já é uma realidade, mas sua alma continua local. E o maior desafio para ligas e clubes será justamente este: expandir-se no mundo sem perder a própria essência.












