Por Marta Elena Casanova
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A notícia é oficial: Milan Como será disputado na Austrália, em Perth, em fevereiro de 2026. Uma decisão sem precedentes para a Serie A, aprovada “a contragosto” pela UEFA, que, no entanto, fez questão de deixar claro desde o início: isso não pode virar uma regra.
O próprio presidente da entidade, Aleksander Čeferin, reforçou que se trata de um caso “puramente excepcional”, motivado pelos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026, que ocuparão o estádio San Siro durante aquele período. Em outras palavras, não é um experimento de marketing, mas uma necessidade logística.
Mesmo assim, com todas as justificativas possíveis, a decisão levanta questões profundas. Se uma partida da Serie A pode ser levada a milhares de quilômetros de distância do seu público, o que resta do conceito de “campeonato nacional”?

UEFA diz sim, mas com relutância
A UEFA também aprovou a viagem internacional de Barcelona x Villarreal, que será disputado nos Estados Unidos, confirmando uma tendência que preocupa muitos puristas. Ainda assim, a própria nota oficial enfatiza que essas autorizações são “concedidas de forma totalmente extraordinária” e que a entidade “não pretende, de forma alguma, criar um precedente”.
Čeferin foi direto: “As partidas de campeonato devem ser jogadas em seu próprio país. Esta decisão é excepcional e não pode ser vista como modelo para o futuro.”
Palavras firmes, mas que soam como um alerta. Afinal, como ensina a história do futebol moderno, toda exceção pode se transformar em precedente para quem quer ir além.

O risco de um futebol sem raízes
Disputar Milan-Como na Austrália pode parecer uma ótima vitrine internacional: o charme da marca rossonera, o apelo global da Serie A, o interesse dos patrocinadores. Tudo isso é real. Mas o futebol não é apenas um produto de exportação — ele também é território, identidade, pertencimento.
Cada jogo de campeonato é parte de uma relação íntima entre o clube e sua torcida, entre a cidade e sua história. Levar essa partida a 14 mil quilômetros de distância é cortar esse laço. É dizer ao torcedor do Como, que talvez sonhasse em assistir sua equipe em San Siro, que o máximo que poderá fazer é ver o jogo pela TV — respeitando o fuso horário, é claro.
O princípio a ser defendido é simples: o futebol nacional deve permanecer enraizado no seu próprio país. Não por saudosismo, mas por coerência esportiva, cultural e competitiva.
Equidade e respeito à cpmpetição
Há também uma questão técnica, menos romântica, mas igualmente importante: a integridade do campeonato.
Uma partida em Perth significa 20 horas de voo, fuso horário, clima diferente, custos altíssimos, desgaste físico. É realmente “o mesmo jogo” que seria disputado em Milão?
A Serie A já é um torneio competitivo e desigual; introduzir desequilíbrios logísticos — mesmo por motivos de imagem — pode comprometer a igualdade entre os clubes.
A própria UEFA destacou isso: os campeonatos nacionais só fazem sentido se todos jogam em condições equivalentes. Caso contrário, o calendário se torna um mosaico de exceções e interesses comerciais, e o esporte fica em segundo plano.
Uma exceção justificada, mas que não pode se repetir
Ninguém nega que exista uma razão válida neste caso: os Jogos Olímpicos tornam impossível jogar em San Siro. Mas transformar esse precedente em hábito por razões comerciais seria um erro grave.
O futebol vive de exceções, sim, mas deve permanecer fiel aos seus princípios: jogar em casa significa jogar no seu país, diante dos seus torcedores.
Milan-Como na Austrália pode ser um evento curioso, talvez até espetacular, mas não deve se tornar um modelo.
O dia em que o campeonato italiano começar a buscar o público global sacrificando o local, teremos perdido não apenas a geografia do futebol, mas também sua alma.ù
Por Marta Elena Casanova












