Por Marta Elena Casanova
Siga-nos nas redes sociais para se manter atualizado sobre as últimas notícias do mercado: Instagram, Facebook e X.
Index
Nos últimos dias, voltou-se a falar com força sobre o futuro da Champions League e o papel da Uefa na gestão do futebol europeu. No centro do debate está o projeto de aumentar significativamente as receitas a partir de 2027 — um objetivo que promete mudar mais uma vez o equilíbrio econômico do futebol continental. Por trás dos números, porém, esconde-se uma fratura crescente entre os clubes mais ricos e os médios e pequenos, preocupados que o novo modelo acentue desigualdades já profundas.
Uefa e Relevent Sports: a corrida pelos 6 bilhões de euros
No ciclo 2024–2027, as competições europeias — Champions, Europa e Conference League — geram cerca de 4,4 bilhões de euros por temporada. A Uefa agora pretende ultrapassar os 6 bilhões na fase seguinte (2027–2030), graças à parceria com a agência americana Relevent Sports. O plano prevê uma gestão mais centralizada dos direitos de transmissão, marketing global mais agressivo e distribuição de pacotes em escala mundial. O objetivo é fortalecer a competitividade econômica em relação às grandes ligas nacionais e aos mercados americano e asiático. Mas o outro lado da moeda é o risco de empobrecer os campeonatos domésticos, já que televisões e patrocinadores se concentram cada vez mais no “produto Champions”.
Superliga e Unify League: a tentação de um novo formato
Embora o projeto da Superliga pareça um capítulo encerrado desde 2021, a empresa A22 — detentora da marca — continua a promover uma versão renovada chamada “Unify League”. A proposta prevê 36 clubes divididos em dois grupos de 18, com partidas apenas dentro de cada grupo e classificações baseadas no ranking da Uefa. Uma ideia que visa multiplicar os confrontos entre grandes clubes, aumentando o valor comercial e televisivo da competição.
A Uefa, porém, negou qualquer negociação ou abertura. Para o triênio 2027–2030, o formato continuará sendo o mesmo, com um grupo único de 36 equipes introduzido em 2024. O Parlamento Europeu também apoiou essa posição ao aprovar uma resolução em defesa do modelo esportivo europeu baseado em equidade, mérito e solidariedade. Em resumo: nada de competições fechadas ou reservadas aos grandes clubes.

Um calendário cada vez mais apertado
Outro ponto sensível é o calendário internacional, já sobrecarregado. A partir de 2024–25, as competições europeias terão mais jogos na fase de grupos e nos playoffs de acesso às oitavas de final. Somando-se a isso o novo Mundial de Clubes da Fifa, previsto para 2025, as sobreposições de datas serão inevitáveis.
Para abrir espaço, Fifa e Uefa pressionam por uma redução no número de times das principais ligas nacionais, de 20 para 18. Mas ligas e clubes médios e pequenos se opõem fortemente: onde a mudança já ocorreu, como na França, o valor dos direitos de transmissão domésticos despencou, prejudicando os clubes menores. A Serie A italiana já deixou claro: nenhuma redução, mesmo que isso signifique confronto com a governança internacional.
Receitas e desigualdades crescentes
A questão central continua sendo a distribuição de receitas. Os clubes de segunda linha pedem o aumento das cotas de solidariedade, que hoje representam apenas 10,6% do total arrecadado pela Uefa. A diferença é enorme: na temporada 2024–25, o Napoli, fora das competições europeias, recebeu apenas 800 mil euros, enquanto a Inter, participante da Champions, ultrapassou os 115 milhões. Um abismo que ameaça a competitividade das ligas nacionais, nas quais quem joga regularmente torneios europeus acumula vantagem quase insuperável.
As ligas propõem um sistema que considere não apenas a participação nas competições da Uefa, mas também o peso econômico de cada campeonato nacional, premiando clubes que investem mais no desenvolvimento local e nas categorias de base.
A divisão política: ECA contra UEC
No campo político-institucional, a disputa ocorre entre dois blocos. De um lado, a ECA (European Club Association), reconhecida oficialmente pela Uefa e presidida por Nasser Al-Khelaifi, do Paris Saint-Germain. A ECA cresceu rapidamente, passando de 276 clubes em 2023 para mais de 800 em 2025 — 29 deles italianos. Mas o poder real continua concentrado nos 20–25 grandes clubes europeus, que são também os maiores beneficiados do atual sistema.
Do outro lado está a UEC, nova associação promovida pela LaLiga e por Javier Tebas, criada para representar os clubes médios e pequenos e pedir um reequilíbrio na governança do futebol europeu. No entanto, a Uefa não a reconhece, e a ECA ameaçou punir clubes que participem de suas atividades.
O risco de um futebol em duas velocidades
A sensação é de que o futebol europeu caminha para um modelo de duas velocidades: de um lado, os grandes clubes globalizados que buscam maximizar lucros; do outro, os médios e pequenos, que lutam para sobreviver. O sonho da Uefa de uma Champions mais rica e internacional pode acabar transformando-se em um sistema cada vez menos justo e competitivo.
O futebol moderno não pode ignorar o mercado e os direitos de transmissão, mas sem equilíbrio econômico e meritocrático corre o risco de se tornar uma vitrine para poucos privilegiados. A disputa pela nova Champions está apenas começando, e uma coisa já é certa: o abismo entre as potências e o resto da Europa nunca foi tão profundo.
Por Marta Elena Casanova












